negras nuvens

tenho sofrido de fortes epopeias oníricas; elas começam em um dia cinzento qualquer de rotina banal, eu levando a vida preguiçosamente, até que algum evento extraordinário acontece de súbito (confesso que me chateio de sair da resignação ao estado de alerta). escudo de vidro em riste, encaro; geralmente uma das minhas últimas quimeras apedrejam-me, alguém revela então seus instintos homicidas, ou misantropos, talvez ambos. depois uma sucessão fatigante de acontecimentos igualmente incríveis: vôo à salvação, cuja entrada diz fechado, me redimo alí mesmo na soleira - de joelhos, é melhor, o senhor admira o sofrimento - não chego à metade do movimento: um tiro da bazuca de um traidor me põe em movimento retilíneo uniforme. perturbam minha paz, alcançada com tanto esmero, não é certo nem direito, as pessoas deviam aceitar umas às outras. idealismos à parte, mais ou menos nessa hora um pingo de lucidez embassa a visão de um jeito inenarrável, a descrição menos inadequada seria tudo esmaece ao som do blues.

gosto de palavras grandes como paradoxo e paradigma

apesar da tempestade, o céu da boca estava seco. mesmo acordado, sonhava que fosse um pesadelo. ainda que triste, a felicidade. via um novo começo além do fim, a esperança póstuma posta após o pesar. uma faca de serra que corta o camembert com precisão cirúrgica, ignorando a mão trêmula e os olhos marejados; cansado de nadar contra a maré, põe os pés no banco de areia no momento do soluço final. do suspiro furtado com a dignidade de um monge cleptomaníaco vem a força dos inválidos; se são de escolhas que vivemos, prefiro a aquarela de cores criadas pelos cegos para fugir da tristeza monocromática; as notas refinadas inventadas pelos surdos que buscam a redenção do silêncio da mente. não à certeza miserável de um futuro seguro, de um lirismo comedido, de doutrinas solidificadas. darwin alertou, aqueles que não mudam, padecem. drummond pacificou, a dor é inevitável, mas o sofrimento opcional. antes o risco de me frustrar à certeza de me arrepender. o que não vale é se arrepender.

decisão fática

se no fim das contas o acordo for mesmo renegar todos os meus instintos mais primitivos para te ter como travesseiro,







provavelmente aceitarei.